segunda-feira, 19 de março de 2012

Oh, máquina, orai por nós!


 Lembro-me que, ainda bem jovem, lá pelos idos de 1968, li um poema de Cassiano Ricardo que mexeu muito comigo: "Ladainha", uma oração à máquina, naquela época coisa de ficção científica. 

Porque o raciocínio, os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado,
o cérebro eletrônico,
o músculo 
mecânico
mais fáceis que um sorriso.
Porque o coração?
O de metal não tornará o homem 
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extracorporal?
Porque levantar o braço
para colher o fruto?
Porque labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Porque pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Porque fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Porque subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós
(1964)

 Na mesma época, li dois romances, também abordando o mesmo tema, a máquina: "Admirável Mundo Novo" e a distopia de arrepiar os cabelos "1984". Ambos baseados numa anti-utopia do escritor russo Zamiatin, intitulada "Nós", que mostra os horrores do mundo dominado pela ditadura da máquina.

Hoje, em pleno século XXI, a ladainha de Cassiano Ricardo saiu do campo da ficção científica, fomos invadidos pelo futuro, a ficção científica se transformou em nossa rotina diária, com placas de "sorria, você esta sendo filmado" espalhadas  por todos os lados, câmaras de segurança, câmaras de vídeo conferência, num mundo meio que orwelliano.Isto para falar só de um tipo de máquina, mas tem as outras, muitas outras...

Um exemplo de que a realidade copia a ficção e a ficção copia a realidade, andando as duas numa estreita simbiose, foi Wild Blue Yokohama, uma praia artificial no Japão, mais especificamente, uma imensa piscina que, até 2001, se localizava em  Tsurumi-ku, Yokohama .


 Era operada pela NKK Corp., tendo sido inaugurada em 1992.Este gigantesco complexo possuía uma praia artificial de borracha, toda decorada com temas tropicais, com ondas geradas artificialmente pela "santa máquina", lâmpadas para gerar calor, cabines de bronzeamento e o escambal. Esta maravilha da tecnologia colocada a serviço do grande capital foi fechada em 2001, devido ao grande número de acidentes que gerou.

Para quê todo este aparato, com tanto mar natural como tem no Japão, que é uma península? Wild Blue é fruto da mentalidade capitalista, que cria um mundo ao avesso, nos dizeres do fantástico Eduardo Galeano. Veja o que este escritor uruguaio escreveu sobre este aparato:
"Este céu jamais nublado, aqui não chove nunca. Neste mar ninguém corre o perigo de afogar-se, nesta praia não há risco de roubos. Não há medusas que queimem, não há ouriço do mar que pique, não há mosquitos que incomodem. O ar, sempre na mesma temperatura, e a água climatizada, evitam resfriados e pneumonia. As imundas águas do porto invejam estas águas transparentes. Este ar imaculado escarnece do veneno que as pessoas respiram na cidade.

A entrada não é cara: 30 dólares por pessoa, mas é preciso pagar separado as cadeiras e os guarda-sóis. Na internet lê-se: "Se você não os levar lá, seus filhos o odiarão". Wild Blue, a praia de Yokohama encerrada entre paredes de cristal é uma obra prima da indústria japonesa. As ondas têm a altura que os motores lhe dão. O sol eletrônico nasce e morre quando a empresa quer e proporciona à clientela desconcertantes amanheceres tropicais e vermelhos crepúsculos atrás das palmeiras.
-"É artificial", diz um visitante,"por isso nós gostamos".


Este depoimento que Galeano coletou retrata bem os efeitos da publicidade trabalhando contra o homem: o mesmo sistema industrial capitalista ao qual pertence a NKK Corp. polui o ar, as águas, está acabando com o planeta mas, na propaganda para enganar tontos tudo fica divino e maravilhoso...



Pelo que deu para perceber do vídeo acima, ele foi rodado posteriormente ao fechamento do complexo e, por ele, dá para se ver como era seu funcionamento.



Tentei descobrir, na internet, se houve vítima de câncer devido ao bronzeamento artificial do "piscinão" japonês, mas os dados relativos ao complexo da NKK são poucos e raros...

 Este complexo me reportou, também, ao shopping center do livro "A Caverna", de José Saramago, onde o grande autor português apresenta, com muita sutileza, a face cruel do mundo capitalista e tecnológico, face esta ignorada por muitos, iludidos pelas 'sombras'.  Através de  um shopping, que oprime por sua tecnologia, substituindo a vida real por uma vida artificial e impessoal,  Saramago mostra o ser humano se tornando mera profissão,as pessoas se tornando  meras sombras.

É a deificação da máquina fora da ficção, na realidade do mundo moderno, onde as máquinas têm mais direitos do que os homens. Volto a Galeano:

"Os direitos humanos se humilham aos pés dos direitos das máquinas. São cada vez mais numerosas as cidades, sobretudo as cidades do sul, onde as pessoas são proibidas. Impunemente os automóveis usurpam o espaço humano, envenenam o ar e, frequentemente, assassinam os intrusos que invadem seu território conquistado. Qual a diferença entre a violência que mata com o motor e a diferença que mata com a faca e a bala?"
E mais:
"Nos EUA se concentra o maior número de automóveis do mundo e também o maior número de armas.(...)De cada 6 dólares que gasta um cidadão médio, um é destinado ao automóvel; de cada 6 horas de vida, uma é dedicada a andar de automóvel ou a trabalhar para pagá-lo.
"Quanto mais pessoas os automóveis e as armas assassinam, quanto mais natureza arrasam, mais cresce o Produto Nacional Bruto; e de cada 6 empregos, um está direta ou indiretamente relacionado com o automóvel e outro com a violência de suas industrias. Quanto mais pessoas os automóveis e as armas assassinam, mais cresce o Produto Nacional Bruto."
E Galeano continua:
" A venda de automóveis é simétrica à venda de armas"..."Os norte americanos usam uma das gasolinas mais baratas do mundo, graças aos xeques de óculos escuros, aos reis de opereta e outros aliados da democracia que se dedicam a vender mal o petróleo, a violar os direitos humanos e a comprar armas norte americanas".(...)Esta sociedade norte americana, enferma de carrolatria, gera a quarta parte dos gases que mais envenenam a atmosfera".
E para atender os interesse da indústria automobilística, o transporte público, esquecido, só serve de apelo nas campanhas eleitorais. Enquanto isto, aqui do lado de baixo do equador, os trabalhadores andam apertados feito sardinha em lata, em ônibus velhos, superlotados, ficando parados por horas em congestionamentos causados pelos que podem comprar carro e lhe dar manutenção...

Mas a idolatria da máquina em nossos dias não para por aí... 
A televisão - máquina que, se bem utilizada, poderia servir de complemento a um sistema educacional deficiente, está nas mãos de uns poucos que só oferecem lixo e manipulam a informação, servindo de veículo da sociedade de consumo e dos donos do poder internacional que, em última análise, são os que tem o controle de quase tudo que é veiculado.É o mundo de George Orwell em pleno funcionamento! O homem servindo à maquina, a máquina devorando o homem e obrigando-o a viver num mundo alienado, sem coração, sem alma, sem piedade e sem solidariedade: a TV, através de suas propagandas (principal intrumento da sociedade de consumo) cada vez mais chamativas, cria necessidades e vende sonhos que só uns poucos conseguem comprar. Os que não nada têm...roubam. Levam seu e-fone, seu celular, seu tênis e, muitas vezes, sua vida. Mas você continua achando que o ladrão se fez sozinho, sem perceber que foi gerado por um sistema que cultua as desigualdades, que vive delas como um vampiro vive do sangue humano...Mas aí já estou entrando no assunto do próximo post - a sociedade de consumo, filha dileta do capitalismo. Finalizo este post com mais um pouco de Eduardo Galeano, servindo de abertura do post futuro:
"Suplício de Tântalo(1) atormenta os pobres. Condenados à sede e à fome, também estão condenados a contemplar os manjares que a publicidade oferece.Quando aproximam a boca ou levam a mão, as maravilhas se afastam. E se, aventurando-se ao assalto, conseguem dar de mão em alguma, vão parar na cadeia ou no cemitério. Manjares de plástico, sonhos de plástico. É de plástico o paraíso que a televisão promete a todos e a poucos dá. A seu serviço estamos. Nesta civilização onde as coisas importam cada vez mais e as pessoas cada vez menos, os fins foram sequestrados pelos meios: as coisas te compram, o automóvel te governa, o computador te programa, a TV te vê"
Sinto muito anunciar, mas 1984 é agora!!! 


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Nota da Milu:
(1)  refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável

FONTES:
- Livro "De perna pro ar", de Eduardo Galeano -L&PM Pocket
- www.yandex.ru
- http://www.proa.org/