domingo, 30 de novembro de 2014

A TV Excelsior e a ditadura no Brasil


Lendo os livros Cães de Guarda - Jornalistas e Censores, de Beatriz Kushnir e Glória In Excelsior, de Álvaro de Moya, me lembrei da extinta TV Excelsior, canal 9 de São Paulo, que eu tanto gostava de assistir durante meus anos de infância e adolescência. A emissora era de propriedade de Mário Wallace Simonsen, um magnata que nada tinha a ver com comunismo, mas que caiu na desgraça junto aos ditadores (além da Excelsior, Simonsen era dono da famosa Panair e de bancos).

A Excelsior teve que encerrar atividades, o Simonsen perdeu, o povo brasileiro perdeu. Quem lucrou com esta derrocada da emissora? A esta pergunta,vou procurar resposta no livro Maços na gaveta: reflexões sobre mídia que, por sinal, está esgotado, não me restando outra alternativa do que procurá-lo nos sebos.

 Meditando sobre os estragos que aqueles anos terríveis (que alguns inconsequentes sonham em trazer de volta) fizeram, tanto para o país, em geral, quanto para a imprensa, em particular, comecei a buscar no Google material mais específico sobre Simonsen e a Excelsior. Na busca, encontrei material que merece ser compartilhado, pois não só recorda um canal que era referência numa época  pré-Globo e sua mafiosa hegemonia ("outorgada" pelo regime),como, também, era um canal que sabia fazer jornalismo limpo, sem manobras e golpes. Conforme lembra o jornalista Luiz Carlos Azenha em seu portal Viomundo, "a  Excelsior, aliás, foi a única emissora que chamou a “Revolução” dos militares de “golpe". Além de recordar a emissora, este material aborda, ainda, um pouco da história do Brasil em seus momentos mais traumáticos, que espero não se repitam jamais.

Começo pelo post do Luiz Nassif, no Jornal GGN:


Segue um pequeno histórico da Excelsior, bem basiquinho, extraído da Wikipédia:



Deixo, ainda, o livro Glória In Excelsior, de Álvaro de Moyá, primeiro diretor artístico da emissora e que originou este post, mostrando sua ascensão e queda da (formato PDF):


Na oportunidade, não posso deixar de postar sobre o desmonte da Panair, pelas mesmas causas do fechamento da Excelsior, pelos militares. A Panair que era um símbolo nacional, numa época em que o Brasil estava ainda longe de ser um país industrializado.


A companhia área virou "musa"na música "Saudades dos Aviões da Panair", do Milton Nascimento. No link acima o vídeo não está funcionando. 
 



Nos tempos da ditadura, por motivos óbvios, esta música foi gravada por Elis Regina com o nome de "Conversando no Bar":



Mais sobre a Panair, no documentário "Panair do Brasil", completo:


Finalizo com a história da TV Excelsior em vídeo, retratando uma emissora fantástica,"comprometida em fazer uma programação de qualidade, disponibilizando cultura, reflexão e entretenimento de alto nível". Mas aí a Excelsior acabou, veio a ditadura e, com ela, a era da Globo, e esta qualidade, este compromisso de oferecer entretenimento de alto nível, reflexão e cultura ficou enterrado para sempre, ou até que venha uma Lei dos Meios, a exemplo do que já existe nos principais países dito democráticos.




E, ainda, direto do "Ver TV":



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Literatura Galega: A Esmorga - Eduardo Blanco Amor


Foto: meu acervo particular de livros

Acabo de ler uma novela galega, A Esmorga, escrita por Eduardo Blanco Amor, um galego natural de Ourense/Es, onde é ambientada a novela, só trocando o nome de Ourense para Auria.

A obra   está escrita em galego, mas acredito que o leitor brasileiro não terá muita dificuldade em compreende-la, sobretudo se souber espanhol: o galego se parece muito tanto com o português, quanto com o espanhol; no entanto, caso surja alguma dúvida, deixo para o possível leitor o Dicionário Galego-Português, da Real Academia Galega, que espero seja útil.



 Adorei a leitura, por isso procurei sua edição digital para compartilha-la neste espaço. Dei sorte: encontrei e posto o link, devidamente testado, funcionando e livre de vírus, a seguir.


A Esmorga teve sua primeira publicação em Buenos Aires, em 1959, onde o autor vivia exilado, em virtude da censura franquista vigente na Espanha, à época. 

Trata-se do relato das tragicômicas aventuras de três amigos numa noite de bebedeira, de esmorga: o Cibrán, o Bocas e o Milhomes. Esta esmorga acaba em tragédia. É a metáfora de um mundo sórdido e de miséria,mas cheio de imaginação e fantasia e o desejo de um vida melhor, sempre expresso na narrativa feita pelo Cibrán .



Mais do que o tema, confesso que o estilo do autor me fascinou. 

A obra vem dividida em 5 capítulos. 

 O primeiro Capítulo - a Documentação, nos coloca em contato com um homem que possui os documentos a partir dos quais a história será reconstituída e narrada. Mas os documentos são incompletos. Haverá, ainda, o concurso de testemunhos duvidosos. Este homem não é identificado pelo autor e reaparecerá nos dois últimos capítulos. 

 No demais capítulos, a narração é colocada na voz de um dos personagens, o Cibrán, em forma de testemunho dos fatos,  num espetacular diálogo com o juiz. As falas deste último ficam, apenas, subentendidas, indicadas por um travessão. Cibrán dá a sua versão dos fatos que o levaram, depois de um dia de esmorga, a depor perante o juiz. Aqui cabe um parêntese: eu presumi que a farra dos três tenha durado um dia, mas - em momento algum, o autor faz referência ao tempo de duração do evento. Ele cita o tempo climático, dizendo ser inverno, fala da geada, do frio intenso e de chuva. Ele fala, também, no tempo (período) que ocorreram os fatos: 90 anos antes de sua narração.

  É preciso dizer que a primeira parte da estrutura (Documentação), vai também fechar a novela para, sutilmente, nos informar do que aconteceu com Cibrán, já que tudo começou com ele, quando ele, rumo ao trabalho, encontra os outros dois personagens, o Bocas e o Milhomes,  vindos de uma farra, de uma esmorga, e se juta a eles, iniciando as aventuras que só chegarão ao fim exatamente diante do juiz.

A obra permeia a temática recorrente do álcool e do amor, passando, também de maneira sutil, pelo homossexualismo. O álcool, acredito, é a própria essência da obra, o que se percebe já pelo título. O amor surge na dor de consciência de Cibrán, pela esmorga, ao pensar em "sua" Raxada e, sutilmente, em lances entre Milhomes e Bocas, em pinceladas de homossexualismo, através do comportamento e jeito efeminado de ser de Milhomes e de sua ligação com Bocas, não tão assumido (ou nada assumido). Cabe, aqui, ressaltar, que Blanco Amor era, ele próprio, homossexual, conforme consta de El Pais, de 27/03/2009:



SOBRE O AUTOR:

 Fonte da foto:http://eduardoblancoamor.files.wordpress.com

Eduardo Blanco Amor é um dos principais nomes da prosa galega, sendo mesmoconsiderado um de seus mestres. Foi jornalista, poeta e autor de duas novelas: A Esmorga e Gente Ao Longe.
Para saber um pouco mais sobre o autor, recomendo a visita ao site da BVG - Biblioteca Virtual Galega, a seguir:
http://bvg.udc.es/ficha_autor.jsp?id=edublanc

Não encontrei obras do autor no Brasil, nem em espanhol, nem em galego, muito menos - em português. Meu exemplar foi adquirido em Santiago de Compostela. Fico na torcida para que alguma editora brasileira se interessa por este autor, em particular, e pela literatura galega, em geral. Enquanto isto não acontece, deixo o endereço de uma livraria da Galícia, mais especificamente, de Pontevedra: a Metáfora, que possui vendas online: www.metafora.es/

Fonte: http://rexouba.tumblr.com/