quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Camus e Sartre:O Polêmico Fim de Uma Amizade no Pós Guerra (Ronald Aronson)


Número de páginas: 400
Preço: R$ 54,90 
Ao acabar de ler "Quem Pagou a Conta? A Cia na Guerra Fria da Cultura", já postado neste blog, me senti atraída a ler mais sobre os intelectuais nele, de alguma forma, citados. Pesquisando sites de busca me deparei com um livro da Editora Nova Fronteira, intitulado "Camus e Sartre. O polêmico fim de uma amizade no pós guerra". Tudo a ver. No livro acima citado a autora, Frances Saunders, fala nestes dois geniais franceses, contando como Camus, na guerra fria, se posicionou do lado dos EUA, participando do "Congresso Pela Liberdade Cultural", patrocinado pela CIA, enquanto Sartre se recusou a qualquer aproximação do Congresso. Imediatamente comprei o livro, de autoria de Ronald Aronson,professor da Wayne State University, de Detroit, especialista em Sartre.

A obra trata da amizade dos dois escritores, seus pontos em comum, suas diferenças e, sobretudo, do fim desta amizade causada pelos posicionamentos de ambos no tocante a guerra fria.
 Com um estilo literário agradável, que faz lembrar um pouco  "intrigas palacianas", o autor nos leva a um passeio pela história do relacionamento dos dois dos maiores escritores franceses, assim como pela história da época em que viveram, uma vez que a ruptura entre ambos está contextualizada no ambiente político e intelectual do início da guerra fria que, nas palavras de Aronson,
"exigia da intelectualidade uma escolha rápida do lado em que ficar, mais do que uma reflexão sobre sua complexidade.

Das orelhas do livro deixo o seguinte texto, que dá uma visão geral da obra:
Camus e Sartre se conheceram em 1943, durante a ocupação alemã na França e logo tornaram-se amigos. Intelectuais e aliados políticos, rapidamente alcançaram fama depois da liberação de Paris. Como dramaturgos, romancistas, filósofos, jornalistas e editores, pareciam estar em todos os principais meios formadores de opinião na França do pós guerra. Todavia, a tensão entre Leste e Oeste traria fim à relação dos amigos, enquanto estes tomavam direções opostas, discordando sobre a filosofia, a responsabilidade dos intelectuais e as mudanças políticas necessárias ou simplesmente aquelas possíveis.
Como os dois expunham publicamente suas opiniões, suas divergências tomaram grandes proporções, atingindo um amplo domínio".

O rompimento aconteceu em 1952. Nunca mais se falaram, mas continuaram a se atacar mutuamente.
Camus morreu em 1960. Sartre sobreviveu a ele por 20 anos, permanecendo crítico em relação a seu antigo amigo.
De acordo com Simone de Beauvoir, amante de Sartre, a amizade dos dois dificilmente poderia ser mantida, já que Camus era idealista, moralista, anticomunista, tudo ao contrário de Sartre, que repudiava o idealismo, era  próximo ao marxismo, desejava uma aliança com os comunistas; Sartre acreditava nas verdades do socialismo, enquanto Camus começou, cada vez mais, a se render aos valores burgueses. Numa época em que era impossível manter a neutralidade, Sartre se reaproximou da URSS e Camus a detestava; não gostava também dos EUA, mas alinhou-se a ele.

Estas foram as razões políticas do rompimento. Haviam, ainda, razões pessoais. Seus temperamentos eram diferentes. Há tempos Sartre o achava insuportável e Camus não suportava ser visto como um "seguidor de Sartre". Fazia sempre questão de afirmar que não era um existencialista, corrente a qual Sartre pertencia. Apesar de todas as diferenças, Sartre, anos depois, reconheceu que "Camus foi o último bom amigo que tive". Ronald Aronson mostra que, no fim das contas, os dois sempre se mantiveram fortemente ligados. Uma ligação intelectual, de alma. Mostra, ainda, que os dois vive­ram um idí­lio, ainda que sepa­ra­dos for­mal­mente. Nem sob o fogo cruzado ide­o­ló­gico dei­xa­ram de fazer refe­rên­cia um ao outro.

As fontes utilizadas por Aronson foram, entre outras muitas, as cartas trocadas entre Sartre e Camus e as memórias de Simone de Beauvoir.Muito mais do que a biografia de uma briga, você, lendo este livro, estará compreendendo, um pouco mais, os pensamentos, filosofias e ideologias que nortearam o século XX.

Recomendo a leitura do livro, se possível, após a leitura do já citado Quem Pagou a Conta: a compreensão torna-se maior. Esta biografia é como que uma complementação do outro, mesmo que sem querer, já que trata de dois dos bastante citados no livro sobre a guerra fria cultural.





Jean-Paul Charles Aymard Sartre(Paris, 21 de Junho de 1905 — Paris, 15 de Abril de 1980) foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.


Albert Camus (07/1913 - 04/01/1960) foi um francês Pied-noir(1) autor, jornalista e filósofo. Seus pontos de vista foram amplamente divulgados como filosofia do absurdo, apesar de ser, muitas vezes, citado como existencialista, apesar de sua rejeição a tal rótulo. Em uma entrevista em 1945, Camus rejeitou quaisquer associações ideológicas: "Não, eu não sou um existencialista . Sartre e eu estamos sempre surpreso ao ver nossos nomes ligados".
Finalizando o post, deixo um vídeo muito a propósito: trata-se de uma entrevista de Sartre, completa, que torna possível uma melhor compreensão, pelas palavras do  próprio pensador, de alguns de seus principais conceitos teóricos filosóficos existenciais.Em espanhol.


Fica, ainda, o documentário Camus X Sartre, também em francês, com legendas em inglês.



 
Espero que o conteúdo do post, ilustrado pelos vídeos, sirva de incentivo para a leitura desta obra que, nos dizeres do Publishers Weekly, constantes da contracapa do livro, trata-se de
uma base biográfica útil para a leitura das obras maiores desses dois autores e uma interessantíssima história do turbulento mundo intelectual da França no pós guerra.
 Numero de Páginas:
Preço do Livro:R$ 54,90
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Fontes de Pesquisa:

Livro Camus e Sartre, de Aronson
www.youtube.com
Livro Quem Pagou a Conta
www.wikipedia.com.br 

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Nota da Milu
(1) termo francês (em português, literalmente, "pé negro") que se refere à população francesa das antigas colônias, dependências e departamentos franceses no norte da África, que foi repatriada a partir de 1962, notadamente após a guerra de independência da Argélia.