terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Áudio livro em francês: Caligula (Albert Camus(

Você estuda francês? Então este post é mesmo para você! Baixe  agorinha mesmo. O nome do autor dispensa maiores comentários. Albert Camus é um grande escritor, dramaturgo, ensaísta, jornalista, filósofo e ativista político. Francês, nascido na Argélia.
Caligula é uma peça teatral escrita por Camus e encenada em 1938. Sua primeira publicação foi em 1944, pelas edições Gallimard, tendo sofrido, posteriormente, inúmeros retoques. Faz parte, ao lado de "O Estrangeiro" e de "O Mito de  Sisifo" do que foi denominado por Camus de "Ciclo do Absurdo". Calígula foi um imperador romano, normalmente tido por devasso, dono de uma natureza extravagante. ; mas o Caligula de Camus ganha outra dimensão, estando sempre em busca do impossível.
No Brasil esta peça foi encenada por Thiago Lacerda, em 2011 e neste mês de janeiro de 2012.

PARA BAIRAR O ÁUDIO LIVRO, VOCÊ SERÁ REDIRECIONADO
PARA O SITE LITERATURE AUDIO.COM:


http://www.litteratureaudio.com/livre-audio-gratuit-mp3/suetone-caligula.html


fonte: 
www.literatureaudio.com

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Direto da Croácia: A magia do piano de Maksim Mrvica — The Piano Player (2005)

Maksim Mrvica (pronuncia-se Mrvitsa) é um pianista croata. Suas músicas são maravilhosas. Nascido em Šibenik (pronúncia:chibinik, uma cidade histórica de seu país(foto a seguir).
Maksim possui muito prestígio na Croácia, tendo alcançado, também, reconhecimento internacional.
Ele serve para desmistificar o preconceito contra aquela região da Europa: a Sérvia e a Croácia possuem talentos com  grande sensibilidade e a prova está neste álbum, que contém as seguintes faixas:. 
01 The Flight Of The Bumble-Bee
02 Grieg’s Piano Concerto In A Minor
03 Exodus
04 Claudine
05 Wonderland
06 Handel’s Sarabande
07 Rachmaninoff’s Rhapsody On A Theme Of Paganini
08 Hana’s Eyes
09 Chopin’s Revolutionary Etude in C Minor
10 Cubana
11 Croatian Rhapsody
12 Dance Of The Baroness
13 Cubana Cubana



PARA BAIXAR O ÁLBUM, COPIE E COLE O LINK A SEGUIR NA
BARRA DE SEU NAVEGADOR:

http://migre.me/lHk03



Fonte: http://musicstorm.org/

Quem foi Plínio, o Jovem (Plinius)

 Representação de Plínio na Catedral  de Como (Itália) (foto abaixo)

Quando li o livro "Os Últimos Dias de Pompéia", de Edward B.Lytton, me deparei várias vezes com referências a Plínio, O Jovem, poeta eminente da época áurea de Pompeia. Em algumas versões e publicações a ele se referem como Plínio, o Moço.Ele foi testemunha da tragédia que soterrou não só Pompeia (79 d.C), mas outras cidades no entorno do vulcão Vesúvio, sob a lama da sua erupção. Plínio deixou, como legado histórico, entre várias cartas e documentos, a narrativa do drama pompeiano. Como sou curiosa, terminada a leitura do citado livro, saí em busca de algo sobre Plínio. Achei algum material na internet e no livro Quem Foi Quem na Roma Antiga, de Diana Bouwder. Achei interessante, daí estar compartilhando com o leitor(ou o futuro leitor) deste blog.
 Plínio, o Moço, foi um homem das letras, orador insígne, jurista, político e administrados imperial da época de Trajano. Estima-se que tenha vivido no período  entre os anos 61 e 112 a.C. Membro da aristocracia municipal de Como(comuna na região da Lombardia, foto abaixo), seu nome era Caio  Plínio Cecílio Segundo (Caius Plinius Caecilius Secundus). 

Era filho adotivo de seu tio Plínio, o Velho.Essa ligação com o pai adotivo, de família de nível senatorial, aliada a uma excelente educação, propiciou a ele o ingresso na mesma carreira senatorial e a prática das leis.Sua primeira acusação e sua primeira pretoria(1) ocorreram no ano de 93 d.C., exatamente no início do reinado de terror de Domiciano (2). A partir do ano 100 d.C. começou a progredir, atingindo o cargo de Cônsul substituto e de áugure, sacerdote que, entre os antigos romanos, adivinhava o futuro, inferindo do voo e do canto das aves os desígnios dos deuses. Alguns anos depois é nomeado governador da Bitínia, tendo por encargo a solução das tensões, principalmente as econômicas, da região. Ele possuía excelentes relações com o imperador Trajano, que lhe deu uma província onde, provavelmente, Plínio faleceu.Sua importância histórica se deve mais ao número de informações sobre ele obtidas através de sua vasta correspondência, do que a algum feito pessoal específico.
 Sabe-se que foi um poeta fortuito e incompetente, mas um notável e bem sucedido orador. De seus escritos ainda sobrevivem:
  1. Panegírico (na realidade, um agradecimento (gratiarum actio) por seu consulado e apresentado diante de uma audiência convidada.
  2. Nove volumes de cartas a amigos, totalizando 247 cartas, com datas meio controvertidas, provavelmente entre os anos 96 e 108 d.C.;
  3. um livro de correspondência com Trajano, abordando inúmeros assuntos: fatos históricos, atividades da corte, natureza, literatura, etc. Seu estilo é fluente e elegante, segundo críticos, que também consideram que Plínio, o Moço, era de poucas leituras e tinha falta de aptidão intelectual mais apurada, o que torna alguma de suas cartas pouco agradáveis ao leitor moderno. No entanto, as duas cartas sobre seu pai adotivo ou sua carta a Valério Máximo sobre como governar a Grécia revelam um escritor de força e um homem sensível.
Plínio estava com seu tio (ou pai adotivo) no dia da tragédia do Vesúvio, mas não o acompanhou na viagem de barco até o vulcão em erupção, que se revelaria mortal:residindo a trinta quilômetros de Pompeia, seu tio foi surpreendido pela explosão do vulcão, uma vez que, até aquela data, a única coisa que havia registrado sobre o assunto foram as marcas de queimado no topo do Vesúvio. Para saciar a sua curiosidade, mandou preparar um pequeno barco, convocou uma tripulação de nove homens e pouco antes das 5 horas da tarde pôs-se a caminho de Pompeia. Ao se aproximarem da cidade, as altas temperaturas e uma densa nuvem de fumaça fizeram com que o barco se desviasse de seu destino, vindo a aportar na vizinha Stabia. Na manhã do dia 25, antes das 7 horas da manhã, uma nova nuvem atingiu Pompeia. Quem ainda tinha sobrevivido e permanecido no local, acabou sufocado pelos gases. A nuvem prosseguiu em direção a Stabia. Os moradores perceberam-na atravessando a baía e tentaram fugir, sem sucesso: os gases vulcânicos fizeram centenas de vítimas, entre elas Plínio, o Velho (representado a seguir).

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 Notas da Milu
(1) magistrado que administrava a justiça, na antiga Roma. Cargo inferior a  Juiz de Direito.
(2) Tradicionalmente comparado a Calígula e a Nero.
(3) Cidade só mencionada por Plínio, o Velho.Ficava a 6 km ao sul de Pompeia. Veja no mapa a seguir.

 Seus escritos sobre esse dia, no qual Pompeia se afogou em cinzas, são o principal documento escrito que versam a respeito de como sucedeu tal erupção. Já em suas cartas, se encontram as melhores descrições da vida quotidiana e política da Roma antiga.Duas delas se celebrizaram por abordar o cristianismo de maneira independente, ou seja, não é um documento da igreja. Estas cartas estão no Livro X, sendo ao todo 122, trocadas com o imperador Trajano. Veja um pequeno trecho de uma destas cartas:
...[os cristãos] têm como hábito reunir-se em um dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição... (Plínio, Epístola 97).
A carta a seguir, copiada do Portal Veritas, é bem interessante, também. Trata-se da epístola 10, 96:
Senhor:
É regra para mim submeter-te todos os assuntos sobre os quais tenho dúvidas, pois quem mais poderia orientar-me melhor em minhas hesitações ou me instruir na minha ignorância?

Nunca participei de inquéritos contra os cristãos. Assim, não sei a quais fatos e em que medidas devem ser aplicadas penas ou investigações judiciárias. Também me pergunto, não sem perplexidade: deve-se considerar algo com relação à idade, ou a criança deve ser tratada da mesma forma que o adulto? Deve-se perdoar o arrependido ou o cristão não lucra nada tendo voltado atrás? É punido o nome de "cristãos", mesmo sem crimes, ou são punidos os crimes que o nome deles implica?


Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma.


Bem cedo, como acontece em casos semelhantes, com o avançar do inquérito se estendia também o crime, apresentando-se diversos casos de tipo diferente:


Recebi uma denúncia anônima, contendo grande número de nomes. Os que negavam ser cristãos ou tê-lo sido, se invocassem os deuses segundo a fórmula que havia estabelecido, se fizessem sacrifícios com incenso e vinho para a tua imagem (que eu havia mandado trazer junto com as estátuas dos deuses) e, se além disso, amaldiçoavam a Cristo - coisas estas que são impossíveis de se obter dos verdadeiros cristãos - achei melhor libertá-los.


Outros, cujos nomes haviam sido fornecidos por um denunciante, disseram ser cristãos e depois o negaram: haviam sido e depois deixaram de ser, alguns há três anos, outros há mais tempo, alguns até há vinte anos. Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça. Findos estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem novamente para uma refeição comum e inocente, sendo que tinham renunciado à esta prática após a publicação de um edito teu onde, segundo as tuas ordens, se proibiam as associações secretas.


Então achei necessário arrancar a verdade, por meio da tortura, de duas escravas que eram chamadas ministrae, mas nada descobri além de uma superstição irracional e sem medida. Por isso, suspendi o inquérito para recorrer ao teu conselho.


O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados. Há uma multidão de todas as idades, de todas as condições e dos dois sexos, que estão ou estarão em perigo, não apenas nas cidades mas também nas aldeias e campos onde se espalha o contágio dessa superstição; contudo, creio ser possível contê-la e exterminá-la.


Com certeza, sei que os templos desertos até há pouco, começam a ser novamente frequentados; que as solenidades sagradas até há pouco interrompidas, são retomadas; e que, por toda a parte, voltam a vender-se a carne das vítimas, até há pouco sem compradores. Disto pode-se concluir que uma multidão de pessoas poderia ser curada se fosse aceito o arrependimento delas."
 Quanto ao relato da catástrofe pompeiana, você podera ler AQUI.

Fontes: 
-Livro "Quem foi Quem na Roma Antiga
Diana Bowder (Círculo do Livro)
-http://portalveritas.blogspot.com/


- ttp://www.starnews2001.com.br
-www.wikipedia.com.br

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

UMA LENDA ASSÍRIA: A SABEDORIA DE AHIKAR, O ASSÍRIO

Os povos do mundo todo tem suas lendas, fábulas e contos que encantam a todos. Através deles, pode-se conhecer um pouco da história e dos costumes de um povo. A lenda deste post veio da tradição assíria, ou seja, de um reino que existia ao redor do riio Tigre, ao norte da Mesopotâmia (atual Iraque) e que dominou ao longo da história os impérios que existiam na região. Existem menções à Assíria datando de 2 mil anos a.C.
Os descendentes dos assírios ainda habitam a região: são a maioria cristã do Iraque. Sua capital original foi a cidade de Assur, atual Qal'at Sherqat, no Iraque, cidade tombada como patrimônio histórico do mundo. 

 
 Assur
 Posteriormente, sua capital mudou-se para Nínive:
As imagens acima são as ruínas do que restou de Nínive que, pelas representações encontradas, deve ter sido belíssima:
Considerações feitas, passemos à lenda:
"Ahikar, o assírio, era filho de Daniel e sobrinho de Tobias(1).Viveu no século VII a.C, na cidade de Nínive, onde desempenhava o cargo de intendente e escriba(2). na corte do rei Senaqueribe.

Em sua juventude, os adivinhos do reino lhe tinham profetizado que não teria descendência. Desde então, Ahikar se casara sessenta vezes, construíra sessenta palácios espaçosos e admiráveis para as suas esposas, acumulara riquezas e honras...mas estava para fazer sessenta anos e a predição se realizara. Ahikar desejava um filho e consultou os magos: ofereceu sacrifícios aos deuses de Nínive e, por fim, desesperado, voltou à fé que fora, em outros tempos, a de seu pai Daniel e de Tobias. Acreditou e orou e, uma noite, ouviu a voz de Iavé(3) que lhe dizia:
_ Por teres confiado os ídolos, morrerás sem filhos e sem filhas. Entretanto, aqui tens Nadan, o filho de tua irmã: adota-o, transmite-lhe a tua sabedoria e será ele o teu herdeiro.
Assim fez Ahikar. Adotou Nadan, o filho de sua irmã: entregou-o a oito  amas que o criaram, ungiu-o com óleos e emel perfumados, construiu para ele um leito macio que cobriu de tapetes... e Nadan foi crescendo como um cedro jovem. Passados alguns anos, Akhikar ensinou-lhe a arte do escriba e transmitiu-lhe toda a sua sabedoria numa série de apólogos(4):
"Meu filho", dizia ele, "o homem que não tem mulher, nem filhos, nem irmãos, é menosprezado pelos seus inimigos. Como árvores à beira de uma estrada, todos os que passam lhe dão uma patada e comem seus frutos, e o animal selvagem dele se acerca e faz com que caiam suas folhas". "Meu filho, não sejas desses a quem seus senhor diz: 'Anda para a frente', e sim daqueles a quem diz:'Aproxima-te de mim e fica a meu lado'. "Não te gabes em tuas palavras, não sejas como a amendoeira que floresce e verdeja antes das outras árvores, mas é a última a frutificar". "Não levantes a voz nem escandalizes; se bastasse uma voz potente para construir uma casa, um burro construiria duas por dia".
"Meu filho, comi losna e mirra, mas nada achei tão amargo como a indigência. Carreguei chumbo e pedras grandes, mas não encontrei nada que pesasse tanto como o opróbrio e a calúnia"...
Assim ia Ahikar educando pacientemente o espírito e o coração do sobrinho. Um dia, quando já Senaqueribe não era rei de Nínive, Ahikar foi chamado ao palácio. O novo rei, Sarhedom, queria falar ao seu escriba: fora sempre ele seu único e fiel confidente e seu mais fiel chanceler, mas os anos iam passando e Sarhedom compreendeu que Ahikar necessitava de repouso.

Para isso o havia chamado: queria saber se na Assíria haveria um homem capaz de substitui-lo. Então o velho escriba falou no filho de sua irmã e, voltando a casa, procurou Nadan e levou-o ao palácio. Sarhedom tomou-o pela mão e jurou mantê-lo a seu lado e dar-lhe honrarias, em lembrança e gratidão a Ahikar.
Passou-se algum tempo. Quando Nadan viu consolidada sua posição na corte, apropriou-se da casa e dos bens de seu pai, maltratou seus servidores, vendeu ou matou seus animais e as reses de seus rebanhos a tiro, e converteu a casa inteira num inferno, até que por fim Ahikar se viu obrigado a queixar-se ao rei. Nadan fingiu submeter-se, mas quando soube que Ahikar havia adotado seu segundo irmão, Nabuzardan, teve medo de que ele quisesse dividir a fortuna entre os dois e tramou uma intriga. Escreveu primeiro duas cartas, imitando a letra do pai. Numa, Ahikar oferecia ao rei da Pérsia e do Elam entregar-lhe o reino da Assíria sem combate. Na outra, dirigida ao rei do Egito, lia-se:
"Quando esta carta te chegar às mãos, vem ao meu encontro na planície do Sul no dia 25 do mês de Ab(5).Quando me vires acercar-me, dispões as tropas em forma de batalha, porque comigo irão dois mensageiros do Egito, a quem quero demonstrar quais são as minhas forças".
 Enquanto Ahikar se preparava para obedecer aquela ordem, seu filho fingia encontrar no chão do palácio as outras duas que escrevera primeiro e leu-as ao rei. Sarhedom não podia acreditar no que estava ouvindo, mas deixou-se convencer por Nadan e acorreu à planície das Águias a fim de comprovar com seus próprios olhos o fato. E ali estava Ahikar, cumprindo suas ordens e, ao ver acercar-se  o rei, mandou formar as tropas. Sarhedom, desesperado, deixou-se convencer por Nadan e voltou ao palácio.
O resto foi fácil, Nadan cruzou  a planície, agradeceu a seu pai, em nome do rei, a forma pela qual cumprira suas ordens e pediu-lhe que dissolvesse seu exército. Depois, mandou prendê-lo e o arrastou à presença do rei.
Quando, por fim, compreendeu que tinha sido vítima de uma intriga, Ahikar tombou ao chão, prosternou-se ante o rei e pediu, como última graça, que se cumprisse a sentença à porta de sua própria casa e que se permitisse que sua esposa, Esfagni, desse sepultura a seu corpo. As duas coisas lhe foram concedidas, e, sem perda de tempo, Ahikar indicou a Esfagni, ponto por ponto, o que desejava que ela fizesse: seria preciso obter que Nabusemak, o carrasco, e os que o acompanhavam, entrassem na casa e encontrassem nela comida e bebida em abundância. Ademais, queria que ali estivessem  mil donzelas, vestidas de linho, açafrão e roxo, para que chorassem sua morte.
Chegou o dia marcado. Esfagni saiu e recebeu a comitiva, precedida das suas mil donzelas.
Ahikar entrou com eles em sua própria casa e esperou. Pouco a pouco, os homens foram caindo ao chão, embriagados, e, então, Ahikar aproximou-se de Nabusemak, o carrasco. Fez com que ele se recordasse como havia nascido a antiga amizade que havia entre ambos: um dia, havia muitos anos, o rei havia condenado Nabusemak à morte e Ahikar, que o sabia inocente, escondera-o para salvar-lhe a vida. Quando, passado algum tempo, o rei começou a lamentar a condenação que fizera, Ahikar lhe confessou a verdade e a alegria do rei foi tão grande que, esquecendo sua desobediência, cobriu de honrarias e jóias os dois amigos.
Aquelas palavras fizeram Nabusemak pensar. Por fim, decidiu-se: mandou trazer outro condenado, fez com que vestisse as roupas do velho escriba e cumpriu-se a sentença. Na Assíria e em Nínive correu a notícia de que Ahikar, o escriba, tinha morrido. Esfagni e Nabusemak o esconderam. Construíram uma caverna pequena, subterrânea, de dois côvados(6) e meio de largura por três de cumprimento e três de altura. Deixaram-lhe comida e água para vários dias e voltaram ao palácio, a fim de se apresentarem ao rei.
Vendo-os, Sarhedom arrependeu-se da ordem que havia dado, quando confiou na palavra de um rapaz, e ordenou a Nadan que preparasse os funerais de seu pai. Nadan, porém, voltou a fazer das suas: instalou-se na casa, entregou-se a uma vida de prazeres, sem respeitar a boa Esfagni, que o criara como a um filho.
Lá de sua caverna subterrânea Ahikar ouvia os lamentos de sua gente, mas não perdia a esperança e quando Nabusemak descia para levar-lhe pão e água, pediu-lhe que oferecesse sacrifícios em seu nome e rezasse por ele.
Quando o rei do Egito soube que Ahikar tinha morrido, ficou muito contente e escreveu uma carta ao rei Sarhedom, na qual dizia que queria construir uma fortaleza entre o céu e a terra e pedia ao rei de Nínive um homem capaz de trsolver aquele e outros problemas. Se o enviado de Sarhedom correspondesse satisfatoriamente às exigências, o Egito entregaria a Nínive a importância do tributo de três anos. Em caso contrário, seria Sarhedom quem deveria entregar ao mensageiro do faraó o equivalente, isto é, o imposto de três anos do reino da Assíria e de Nínive.
 Quando Saherdom leu a carta mandou chamar todos os sábios, adivinhos e cientistas de seu reino. Em outros tempos, tais questões tinham sido sempre resolvidas por Ahikar, e a opinião de todos, portanto, foi que dessa vez se consultasse Nadan, o novo escriba, que havia herdado a sabedoria paterna. Nadan, porém, replicou, aos gritos, que nem os deuses poderiam fazer o que naquela carta se pedia, e então o rei, chorando amargamente, abandonou a sala do trono. Nabusemak percebeu que havia chegado o momento; aproximou-se do soberano e confessou-lhe toda a verdade. Sarhedom, louco de alegria, ordenou que em seu próprio carro fosse buscar Ahikar.
O velho escriba mal podia manter-se de pé: estava todo coberto de pó, de lama, a barba alcançava-lhe a altura do peito e o cabelo caía-lhe pelos ombros, em emaranhado espesso. Ao vê-lo chegar, o rei o abraçou e choraram juntos durante muito tempo. Logo Sarhedom pediu-lhe que voltasse a sua casa e repousasse durante quarenta dias, procurando recuperar suas froças. Assim foi feito. Passados quarenta dias, Ahikar voltou ao palácio e o rei leu a carta, assegurando o velho escriba que poderia atender satisfatoriamente ao faraó. Sarhedom não cabia em si de contente e encheu de presentes e jóias seu carrasco Nabusemaq.
O velho escriba tornou a recorrer à sua esposa, Esfagni. Desta vez pediu-lhe que mandasse caçar duas águias jovens, que comprasse duas gaiolas não muito grandes e que mandasse tecer uma corda de mil côvados de comprimento e um dedo de grossura. Além disso, pediu-lhe que arranjasse seis amas de leite para Nabuhail e Tebsalão, duas crianças que eram filhas de servidores seus. Os meninos e as águias deviam crescer juntos e tomar, como único alimento, dois cordeirinhos por dia.
Esfagni fez tudo quanto seu marido mandava e, passados exatamente vinte dias, Ahikar, com uma pequena escolta, se pôs a caminho. No Egito, a expectativa era grande. No dia de sua chegada, Ahikar se apresentou ao faraó e este lhe perguntou seu nome, ficando ofendido com a resposta, que foi a seguinte:
- Sou Abikam, uma das formigas do rei de N´nive. O faraó ficou encolerizado. Como se atrevia Sarhedom a mandar uma de suas formigas para dar resposta à sua carta? Entretanto, conteve-se e ordenou a Ahikar que voltasse na manhã seguinte.
Quando Ahikar chegou ao palácio encontrou o faraó vestido de algas e púrpura, rodeado de toda a sua corte, que se vestia de cor vermelha intensa.
- A quem nos podes comparar?- perguntou o rei. 
E Ahikar respondeu:
- Tu, senhor, fazes lembrar o deus Bel (7), e teus nobres, os seus sacerdotes.
A resposta satisfez o faraó, que lhe pediu voltasse na manhã seguinte.
Ao chegar, Ahikar viu o faraó vestido de branco, sentado em seu trono de ouro e rodeado pela corte,também vestida de branco.
O rei fez a mesma pergunta do dia anterior.
- Tu, senhor, recordas o Sol e tua corte os seus raios - foi a resposta do escriba.
Passou a noite. Na manhã seguinte, quando Ahikar chegou ao palácio, viu as portas do templo abertas, cobertas com panos pretos e escarlates, e, no meio, o rei, vestido de vermelho vivo, rodeado pela sua corte vestida de preto.
- Tu, senhor, pareces a lua e teus homens, as estrelas, disse Ahikar.
No quarto dia as portas estavam cobertas com panos de várias cores e a corte inteira ornada com trajos multicolores, enquanto o próprio rei vestia uma túnica estampada.
- Pareces Nisan -disse Ahikar - e teus nobres seriam as flores.
Nisan era o primeiro dia do ano babilônico, o que coincidia com o nascimento da primavera, e a resposta satisfez o faraó.
- Uma vez me comparaste a Bel - disse ele, então. - Outra vez ao Sol, à Lua e à Primavera. Dize-me, agora, a que compararias teu senhor Sarhedom?
E Ahikar respondeu:
- Deus me livre de falar de meu senhor Sarhedom estando em tua presença e conservando-te tu sentado. Sarhedom se assemelha a Deus do céu, e os nobres de sua corte aos relâmpagos. Quando quer, torna duro o orvalho e a chuva, até convertê-la em granizo. Eleva colunas de fumaça até os céus de sua realeza: troveja, ruge e impede o Sol de levantar-se, e seus raios de brilhar. Impede que Bel e seus sacerdotes andem pelas praças públicas, impede a lua de sair e as estrelas de brilhar, e, se quiser, ordena ao vento do norte que forme granizo e destrua Nisan e suas flores.
Ouvindo-o, o rei do Egito franziu as sobrancelhas e perguntou novamente ao escriba como se chamava. Então Ahikar se deu a conhecer ante toda a corte, contando como havia escapado da morte. O faraó levantou-se e ordenou que na manhã seguinte lhe dissesse uma palavra ou uma frase que nenhum de seus súditos já tivesse ouvido pronunciar em toda a região do Egito.
Ahikar retirou-se e naquela noite redigiu uma carta: era dirigida ao rei de Nínive e assinada pelo faraó. Nela se dizia que o tesouro do Egito estava empobrecido e o faraó pediu ao rei Sarhedom novecentos talentos(8), com a promessa formal de devolvê-los brevemente.
Quando, no dia seguinte, Ahikar leu aquela carta diante do rei, todos os cortesãos asseguraram que não era a primeira vez que a ouviam.
- Então, disse Ahikar, isso é sinal de que o Egito deve novecentos talentos ao rei Sarhedom.
Os cortesãos ficaram estupefatos. Mas o rei não se deixou abater e pediu a Ahikar que lhe construísse um palácio entre o céu e a terra, a mil côvados de altura. Ahikar mandou trazer as águias  de Esfagni, prendeu-as pelas patas com a corda de linho, fez subir sobre elas as crianças, e, quando estavam no ar, Nabuhail e Tebsalão começaram a reclamar, aos gritos, dos arquitetos do Egito, a argamassa e as pedras de que precisavam para construir.
Os anos fizeram com que Ahikar perdesse a razão - pensou o faraó. - Quem poderia subir com a argamassa até ali?
Ahikar, porém, percebeu o que o faraó estava pensando e disse-lhe que ele não merecia sequer pronuncia o nome de Sarhedom: se o rei de Nínive quisesse construir dois palácios por dia, poderia fazê-lo.
No dia seguinte o faraó propôs-lhe um novo enigma.Assegurava-lhe que quando o cavalo do rei de Nínive relinchava na Assíria, as éguas tinham potrinhos nas cavalariças egípcias. Como podia explicar-lhe aquilo?
Ahikar, antes de responder, mandou que lhe trouxessem um gato, animal sagrado no Egito.
Quando o teve nas mãos bateu-lhe violentamente, sob o pretexto de que matara seu galo predileto lá em Nínive, e era aquele galo que despertava o escriba quando o rei precisava dele. Mas, naquela noite, o gato tinha ido a Nínive, matara o galo e voltara na mesma noite para o Egito.
O faraó corrigiu-o. Os anos, sem dúvida, haviam debilitado sua memória. Como poderia o gato percorrer trezentas parasangas (9) durante uma única noite?
Então o assírio respondeu que um gato muito bem  podia andar numa noite a distância a que se deixava ouvir o relincho de um cavalo.
Mas o rei não se deu por vencido. Pediu-lhe que lhe esclarecesse o sentido de outro enigma: que podia representar uma coluna composta de 8.763 tijolos, sobre os quais havia plantados doze cedros, que por sua vez sustentavam trinta rodas sobre as quais havia dois homens correndo , um branco e um negro?
- Os 8.763 tijolos, respondeu Ahikar, são as horas do ano, os doze cedros são os meses, as trinta rodas, os dias do mês, e o corredor branco é o dia e o negro é a noite.
- Trança-me duas cordas de pó de 50 côvados de comprimento e um dedo de espessura - disse o faraó. E Ahikar respondeu:
- Ordena que me tragam de teu tesouro uma corda deste tipo para que eu possa ve-la e fazer outra igual.
Mas o faraó não aceitou aquela resposta. Ahikar retirou-se e passou a noite acordado, meditando. Por fim, teve uma ideia. Na manhã seguinte fez vários furos, não muito separados, na parede exterior do palácio. Quando o sol bateu ali os raios penetraram pelos orifícios no aposento escuro, e as partículas de pó pareciam bailar ao sol.
- Que teus operários teçam agora esses fios de pó e terás a corda - disse Ahikar ao faraó.
Mas o rei do Egito havia preparado outras provas. Mandou trazer uma mó de moinho que estava quebrada e ordenou a Ahikar que a costurasse. O assírio, sem titubear, apanhou o pilão do moinho, colocou-o diante do rei e disse-lhe:
- Senhor, eu não trouxe comigo o necessário. Ordena aos teus servidores que me fabriquem um fio com isto, que é da mesma matéria, e eu costurarei a mó.
Ouvindo-o, o faraó desatou a rir e abençoou o dia em que Ahikar nascera. Encheu-o de presentes, entregou-lhe o tributo de três anos e os novecentos talentos que, segundo tinham jurado os seus cortesãos, o Egito devia a Nínive, e prometeu instaurar uma festa anual em todo o seu reino, em honra a Ahikar, o escriba assírio.
Quando este retornou a Nínive, Sarhedom em pessoa foi ao encontro dele, abraçou-o e jurou entregar-lhe tudo quanto lhe pedisse: seu reino inteiro, se assim o desejasse. Mas Ahikar só desejava castigar Nadan. O rei mandou que lho entregassem, e o velho escriba começou a dar-lhe uma surra, enquanto dizia:
-Meu filho, vieste confirmar o provérbio que diz:"Apanha o filho de tua irmã debaixo do braço e bate com ele contra uma pedra". Meu filho, foste para mim como aquele que, vendo um homem tiritar de frio, apanha um vaso de água e atira-lhe em cima. Dei-te tudo quanto era bom, e tu me negaste o pão. Untei-te com óleos perfumados e tu me lambuzaste de lama. Dei-te os vinhos mais velhos, e tu nãome deste sequer água para beber. Meu filho, eu fiz de ti uma torre alta e dizia comigo: "Se o inimigo vier contra mim, nela me refugiarei". Porém, quando o inimigo veio, tu te curvaste diante dele. Meu filho, tu me fazes lembrar a árvore que diz aos lenhadores que a estão talhando: "Se não tivésseis em vossas mãos um pedaço do meu corpo, isto é, o cabo de vosso machado, não poderieis derrubar-me". Oxalá pudesses ter sabido ocupar meu posto depois de me matar, mas ainda que a cauda de um porco crescesse sete côvados, ele nunca poderia converter-se em um cavalo, e ainda que seu pelo se fizesse suave e lanoso, nunca serviria para o trajo de um fidalgo.
Assim ia Ahikar admoestando seu filho. Um provérbio assírio diz que ao surdo se obriga a ouvir pelas costas. Nadan invocou sua misericórdia, prometeu seguir seus conselhos, cuidar do gado e honrar seus servidores.
- Meu filho, respondeu Ahikar, tu me fazes lembrar a palmeira do caminho; quando seu dono quis arrancá-la porque não dava frutos, prometeu-lhe ela que se a deixasse viver produziria como a açafroa(10) e seu dono respondeu: "Como produzirás outro fruto se não foste capaz de produzir os que te são próprios?"
Entretanto, Ahikar cessou de surrar o filho e deixou seu julgamento nas mãos de Deus. A lenda conta que Nadan foi inchando como um odre e morreu cedo, enquanto Ahikar, durante muitos anos ainda, desempenhou as funções de escriba do rei.
____________________________________________
Notas:

(1)Daniel era profeta de Israel, de sangue real e Tobias é nome de mais de um hebreu, citado nas Escrituras. A referência deve ser a Tobias, filho de Tobiel, que foi levado para Nínive.
(2)Doutor, que escrevia e interpretava as leis.
(3)Deus
 (4)narrativa que busca ilustrar lições de sabedoria ou ética, através do uso de personalidades de índole diversa, imaginárias ou reais, com personagens inanimados. Servem como exemplos os clássicos apólogos de Esopo e de La Fontaine.
(5)Nome dado pelos hebreus ao último mês do verão, décimo primeiro mês do calendário civil. 
(6) Medida de comprimento que foi usada por diversas civilizações antigas
(7) Um dos deuses assírio-babilônio. Também chamado de Baal. 
(8)Tipo de moeda usada na Assíria, Grécia e Roma, variando de valor conforme o local. 
(9) Medida de distância dos persas, equivalente a cinco km, 520m. 
Planta originária do oriente, cujas flores produzem matéria corante, não tóxica, que serve para dar colorido a massas, doces e mesmo para tinturas.


Fontes:
>http://whc.unesco.org/

www.yandex.ru

Livro Clpassicos da Infância: Lendas do Mundo Inteiro (Círculo do Livro)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A ARTE DE JOHN CONSTABLE

autorretrato

Grande artista britânico, John Constable (1776-1837) é considerado um dos maiores paisagistas de seu país. Era admirador dos paisagistas holandeses, como Claude Lorrain, que tiveram grande influência em sua carreira. Durante sua vida, vendeu apenas 20 telas na Inglaterra, apesar de sua grande aceitação na França.Estudou na Royal Academy Schools. e realizou sua primeira exposição em 1802, só tendo sido aceito como membro da Royal Academy em 1829.
Ele baseava suas obras em desenhos que fazia diretamente da natureza: nuvens, árvores, efeitos de mudança de cor. Trabalhava sempre ao ar livre e, em geral,desenhava diretamente  com óleo ou usava rascunhos que levava para seu ateliê. Ele chamava suas obras maiores de "métricas". Nunca antes as paisagens adquiriram tamanha proporção. Apesar de nunca ter saído da Inglaterra, seus trabalhos influenciaram artistas franceses, entre eles Eugène Delacroix.Ele transmitia como ninguém o azul do céu, o frescor das folhas verdes, a natureza e o relacionamento humano.
Agora, uma amostra de seu trabalho: "mais vale ver uma vez do que ouvir cem vezes", já dizem os russos. Mãos a obra!
* A Catedral de Salisbury vista do jardim do bispo (1823)
 *Stonehenge, Londres
* O carro de feno
 * Nuvens:
 * Retrato de Maria Bicknell, com quem se casou contra a vontade da família dela. Foram felizes, pelo que consta em sua biografia.
O moinho em Fletforde (1817)
* A construção de barcos em Fletforde (1815):
Outras paisagens:

Fontes: 
livro 501 Grandes Artistas
www.yandex.ru
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